ROMARIA DE NOSSA SENHORA D'AGONIA


A Maior Romaria de Portugal
Num Portugal mergulhado numa agitação de rebeliões contra o Liberalismo, nasce em 1823 aquela que é hoje a maior romaria do nosso país, com a ajuda dos romeiros vindos de fora, que ali vinham para dar oferendas a Nossa Senhora em retribuição dos favores por eles pedidos e por ela concedidos. No ano de 1861, a Romaria era já mais que apenas uma festa religiosa. É o arraial com todas as suas motivações lúdicas, tal como a conhecemos hoje em dia, e uma verdadeira mostra de artesanato e tradição. Durante os séculos seguintes, a Romaria ganha importância e passam a realizar-se, todos os anos, as festas, em que a tradição se mantém aliada à fé e devoção à Senhora.
Os vários dias da Romaria são bem repletos. Todos os anos existe uma Feira de Artesanato, espetáculos musicais com artistas reconhecidos, fogo-de-artifício todos os dias às 24h00h sempre em locais diferentes da cidade, de onde se destaca a grande e majestosa serenata na Ponte Eiffel no domingo, encontros de Bandas Filarmónicas do concelho, um Desfile da Mordomia que se realiza sempre na sexta-feira, o Cortejo Histórico-Etnográfico que se realiza normalmente no sábado dessa semana à tarde, um festival de Concertinas e Cantares ao Desafio e, ainda a procissão solene que muda de dia consoante o dia do feriado. No dia 20 há sempre a celebração solene eucarística (no Adro da Senhora d'Agonia), seguida da procissão ao mar, sendo que no dia anterior à noite se faz a confecção dos "Tapetes Floridos" nas ruas da Ribeira. “Por Viana, nós incendiamos o céu e fazemos o chão tremer.” (Rodolfo Lopes)
A Romaria da Nossa Senhora d’Agonia torna-se assim numa das grandes festividades cíclicas do nosso país, de forma a agradecer à Santa um ano que passou, e pedir a proteção para o ano que se avizinha, tanto no mar como na terra.
O Cortejo Etnográfico
O Cortejo histórico-etnográfico é um momento que teve início há mais de cem anos. No início do século XX, o cortejo denominava-se de “Parada Agrícola” e tinha como objetivo mostrar à cidade de Viana do Castelo e aos forasteiros que por lá apareciam, o melhor que cada freguesia do concelho fazia. Todos os anos, mais de 3000 figurantes, através de dezenas de quadros e carros alegóricos, o tornam num verdadeiro “museu vivo”. O desfile demora mais de duas horas para percorrer cerca de dois quilómetros, com início debaixo da ponte Eiffel e fim no Campo da Agonia, em frente à Igreja da Nossa Senhora d’Agonia.
Usualmente, o Cortejo estrutura-se junto ao jardim público, em frente à marina de Viana do Castelo, e tem como direção de partida a ponte Eiffel; o primeiro carro alegórico fica junto à ponte Eiffel e, o último, quase em frente à biblioteca pública. (Lima, 2018, p.22)
Durante o desfile, são imensos os panoramas que provocam a participação da assistência, seja “para beber um copo de vinho ou para comer broa e uma sardinha assada.” (Rodolfo Lopes). Pelo meio, não faltam cantigas pelos grupos de concertinas, e os grandiosos trajes à vianesa, assim como inúmeros grupos de bombos que se “picam” entre eles, fazendo o próprio chão tremer entre a euforia dos participantes e da assistência.


Na época da “Parada Agrícola”, os carros alegóricos eram realizados nas diferentes freguesias e viajavam apenas no próprio dia para a cidade. “(…) os carros eram puxados por bois, e só há uns 50 ou 60 anos é que apareceram os tratores que vieram substituir o gado.”
(Maria do Sameiro). Este momento de união por parte de todos os vianenses, juntos milhares de pessoas, tanto na organização como a assistir e é, talvez, dos momentos que mostra um maior número de tradições e do verdadeiro “saber fazer” da cidade. A ligação com a terra está estampada em tudo o que é ali desfilado com tanto gosto e orgulho.

O Desfile da Mordomia
O Desfile da Mordomia tem origem no cortejo realizado no dia 15 de agosto de 1968 e, com o passar do tempo, tornou-se uma afirmação do bem-trajar e ourar, das lavradeiras alto-minhotas, num verdadeiro marco do orgulho e vaidade de ser de Viana. As mordomas, que ali desfilavam, eram as raparigas das aldeias de todo o concelho, no mínimo com 14 anos, encarregues de recolher os fundos para a realização da romaria da sua freguesia, fazendo os peditórios porta a porta. Escolher a mordoma que iria representar uma família, era um acontecimento muito importante e determinante para todos.
“Reza a tradição que as moças trajadas devem transportar, na mão direita, a vela votiva que, na missa de festa, era colocada no altar de Nossa Senhora de Fátima.” (Viana Festas, 2021). A vela que carregam possui uma simbologia marcada e ligada à genuinidade e pureza da moça casadoira, uma vez que se a vela apagasse, isso acusaria a jovem de impureza. Com o desaparecimento, ao longo das últimas décadas, do rito de passagem de menina para mulher nas freguesias do concelho, este desfile vem preencher essa lacuna, juntando
gerações de avós, mães e netas, num momento que fica marcado na história das suas vidas.
Todos os anos, o desfile reúne cerca de meio milhar de mulheres pelas ruas da cidade. É caraterizado pela típica chieira, aquele sentimento que ninguém consegue explicar, onde as mordomas exibem os seus melhores trajes, e as exuberantes peças de ouro, algumas que contam já com vários séculos, tendo alguns já sido desfilados várias vezes. Exaltando o gigantesco valor do ouro, quer a nível monetário, quer a nível sentimental, várias mordomas chegam a desfilar mais de uma dezena de quilos de ouro. “Estas mordomas representam, de forma espontânea, a maior montra de ouro ao ar livre do mundo. Trajam-se a rigor e com minúcia na arte de bem-vestir e ourar, cumprindo todos os detalhes herdados de gerações anteriores, mantendo a tradição para desfilar com orgulho.” (Viana Festas, 2021) É de salientar que cada traje de festa desfilado, possui caraterísticas únicas, dependendo da freguesia a que pertence, desde a sua cor, ao trabalho do avental, a barra da saia, o lenço, bem como, a quantidade de ouro que a mulher enverga.
Existe ainda um código do bem-trajar e ourar, que cada mulher tem de seguir à regra, para que a tradição se mantenha da forma mais original possível.
Desde as suas origens que o Desfile da Mordomia serve para enaltecer, não só o saberfazer vianense, mas também o papel da mulher como desenvolvedora da família, visto que esta tem como objetivo mostrar o seu dote, de forma a arranjar um noivo e criar uma família.



Procissão Solene
A Procissão Solene ou Procissão da Cidade como também é conhecida entre os vianenses, é já um momento centenário do programa da Romaria, muito apreciado e conservado, por integrar a imagem da padroeira, carregada permanentemente por pescadores.
Até ao passado ano de 2012, a procissão em honra de Nossa Senhora d'Agonia,concretizou-se sempre na sexta-feira da festa, mas, a partir desse ano, e por sugestão da Diocese da cidade, passou a ocorrer sempre ao domingo, o "Dia do Senhor".
O andor da Senhora d'Agonia parte do seu santuário, encontrando-se no recinto fronteiro ao templo, com o da Senhora dos Mares, Assunção, Monserrate, São Roque, Beato Bartolomeu dos Mártires e, ainda, São Pedro, todos vindos da Igreja de S. Domingos.
Quando se finaliza a procissão, a imagem da Senhora d'Agonia recolhe ao seu Santuário, sempre virada para a Ribeira de Viana, momento este “marcado pela emoção de milhares de pessoas que se juntam na envolvente aplaudindo e atirando flores”. (Viana Festas, 2021). “Sentimos uma alegria nova. Vem aquilo do fundo. Vem Nossa Senhora. Depois, quando Nossa Senhora vai dar a volta, não
vem por esta, vai por aquela, e depois vem por aqui, Nossa Senhora entra, vamos para a Igreja vê-la despedir. Que coisa linda ela a despedir-se dos outros andores. É a coisa mais linda que há no mundo!” (Celeste Gavinho)
No meio de todo o caos habitual da festa, faz-se sentir, repentinamente, um silêncio “ensurdecedor” por todas as ruas. O único som que se faz ouvir pela cidade é do compasso do bater das varas, levadas pelos pescadores da ribeira, no chão, e das socas calçadas por eles, e das chinelas das varinas – as mulheres lutadoras, que ao lado dos maridos, pedem auxílio e agradecem à Senhora por os terem com elas. “A mulher da Ribeira é única. É aquela que sempre lutou para conseguir sobreviver.” (Lara Silva)
Juntos, por entre o esforço das pessoas que os carregam, desde pescadores, varinas e outros que vão pagar promessas ou honrar e recordar familiares, percorrem as várias ruas do centro histórico e da Ribeira, com milhares de pessoas a assistir. A devoção à padroeira dos pescadores junta mais de uma centena de figurantes que, acompanhando os andores, dramatizam diversos quadros bíblicos.
É arrepiante o choro que se faz sentir ao passar da Senhora às portas das casas daquelas gentes que lembram momentos e familiares que foram perdendo às suas mãos. Mas não existem sentimentos de culpa. “É a padroeira dos pescadores. É a nossa padroeira. E nós damos tudo por ela. Assim conforme nos tira, assim nos dá.” (Ana Maria Castro)



Procissão Solene
No dia 20 de agosto, vive-se um dos momentos mais emblemáticos, adorados e fascinantes da Romaria d’Agonia. “Uma devoção antiga dos pescadores à sua padroeira, a quem pedem proteção nas horas de maior aflição e, que neste dia, agradecem e cumprem as suas promessas.” (Viana Festas, 2021)
Em procissão, os homens, com as suas camisas aos quadros, como é tradição de pescadores, suportam nos ombros o peso dos andores, cada um com mais de 500 quilos, transportando-os até ao cais, acompanhados pelas devotas mulheres, que vão rezando e
pedindo à Senhora que sempre lhes proteja os maridos.
Nossa Senhora d’Agonia… todos os dias a gente se deita e se levanta com ela. E quando estão em perigo no mar, é a ela que chamamos. É a ela que os entregamos. Sair de casa saem, se entram é que não sabemos. (Ana Maria de Castro)
Depois de chegados ao cais, num instante de devoção e vaidade, os barcos são abençoados para depois levarem ao mar e ao rio, as imagens de Nossa Senhora d’Agonia, de Nossa Senhora de Monserrate, de Nossa Senhora dos Mares, do Beato Bartolomeu dos
Mártires e de São Pedro. Imediatamente depois, pelas margens do Rio Lima, alguns milhares de pessoas, emocionadas, cortejam a passagem dos barcos com fortes aplausos, venerando a Senhora.
A Procissão ao Mar reúne mais de uma centena de embarcações de pesca e de recreio, devidamente engalanadas, que em conjunto “abençoam” o rio Lima, agradecendo o ano que passou e pedindo proteção para todo o ano seguinte. “O mais importante da romaria é a procissão ao mar, em que a nossa Senhora vai benzer o mar que é o ganha-pão daqui, e os pescadores lhe agradecem o ano que passou, e o ano que está para vir.” (Laura Barbosa)


Tapetes Floridos
De regresso do mar, depois de sair dos barcos, a procissão é recebida pelos tapetes de sal, desenhados e construídos nas ruas, durante a noite anterior. Estes são realizados desde o ano de 1968, em várias artérias da ribeira de Viana do Castelo, sempre na noite de 19 para de 20 de agosto, feriado municipal. Tal como em 1962, aquando da visita a Viana do Castelo de Nossa Senhora de Fátima, também em 1968 os fiéis vianenses decidiram realizar tapetes para a passagem de Nossa Senhora d’Agonia, com flores, artes da pesca e colchas.
Nem sempre foi fácil manter esta prática, mas, com o passar dos anos, tornou-se um verdadeiro símbolo de dedicação e fé dos pescadores à sua padroeira. Assim, na década de 80, algumas ruas começam a introduzir o serrim tingido com óxidos de ferro para criar os motivos decorativos que ornamentavam os arruamentos. No entanto, devido à escassez de serrim na região, assim como pela leveza do material que voava facilmente com as nortadas típicas da zona, a sua utilização caiu em desuso. No ano de 1994 introduz-se então o sal, tingido com anilinas, “misturado com flores, verdes e objetos do mundo da pesca”. (Teresa Sousa). Os materiais podem ter evoluído, mas a devoção e a dedicação com que são feitos estes tapetes mantem-se inalterável.
Nesta noite, as gentes da Ribeira, de corações cheios, tanto novos, como velhos, trabalham, durante toda a noite, ornamentando as suas ruas com tapetes de sal e centenas de motivos alegóricos à pesca, à Romaria e à cidade de Viana. Chegam a ser algumas centenas
os braços, incluindo os de amigos, ou apenas curiosos, que cuidam mais de 30 toneladas de sal colorido, utilizado para decorar as seis principais ruas para “honrar a Senhora ao passar” (Laura Barbosa). A todas estas preparações nesta noite de grande cansaço, por entre muito trabalho anónimo, assistem milhares de pessoas, a maioria cantando e dançando ao som das concertinas, das tunas ou simplesmente dos amigos que se juntam para tocar bombo ou cantar noite dentro, sempre com passagem obrigatória pelas várias tascas da Ribeira.
É o momento de maior animação e convívio dos dias da Romaria.



Cartaz promocional à Romaria de Nossa Senhora d'Agonia.

Serenata
Um dos momentos mais aguardados da Romaria, é a Grandiosa Serenata. Trata-se de um grande espetáculo de fogo de artifício, em pleno Rio Lima, com a Ponte Eiffel como pano de fundo e suporte.
Gigantones e Cabeçudos
Em todos os dias de Romaria, é habitual ver-se, pela cidade, o desfile e a grande festa de gigantones e cabeçudos, que fazem a maravilha dos locais e dos visitantes que chegam todos os dias
